Gestores municipais, empresários e representantes da cadeia produtiva da bovinocultura participaram, nesta quarta-feira, 13, do workshop sobre o aproveitamento e descarte adequado de carcaças, couro e vísceras de animais, processo também conhecido como renderização.
O evento, organizado pelo Governo do Tocantins, por meio da Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh) e da Secretaria da Agricultura e Pecuária (Seagro), foi realizado no auditório Jaburu, integrando a programação da Agrotins 2026. Na ocasião, o secretário Marcello Lelis anunciou a proposta de implantação, no estado, de um modelo piloto de compostagem produzida a partir de restos de animais.
O modelo, desenvolvido pela Embrapa, foi apresentado pelo pesquisador em Gestão Ambiental e Recursos Naturais da Embrapa Gado de Corte, de Campo Grande/MS, Dr. Rodiney de Arruda Mauro, responsável pela condução do workshop. Trata-se de um processo controlado de decomposição de animais em que as carcaças são depositadas sobre matéria vegetal (folhas de árvores, galhos, restos de silagem e serragem) e esterco seco.
O evento teve como objetivo apresentar processos e novas tecnologias capazes de transformar resíduos do abate — como ossos, sangue, vísceras e gorduras — em matérias-primas de valor agregado, contribuindo para a sustentabilidade da pecuária e para a redução dos impactos ambientais.
Com uma economia fortemente voltada ao agronegócio, especialmente à pecuária, o Tocantins possui atualmente mais de 11 milhões de cabeças de gado, consolidando-se entre os dez maiores rebanhos do Brasil, com crescimento de cerca de 40% entre 2018 e 2024.
Transformar sobras em novos produtos, como ração, sabões, cosméticos e adubos, fortalecendo a economia circular e alinhando a pecuária aos conceitos de sustentabilidade e bioeconomia, tornou-se um desafio para gestores públicos e empresários do setor.
Na ocasião, o secretário Marcello Lelis enfatizou que o papel do Estado é articular, junto aos municípios, iniciativas mais sustentáveis, a exemplo das ações adotadas pelas prefeituras para o encerramento dos lixões a céu aberto. A iniciativa vem sendo impulsionada pelo Governo do Tocantins, por meio do programa Lixão Zero.
Nesse contexto, Marcello Lelis anunciou a proposta de implantação de um projeto piloto de compostagem para auxiliar os municípios na resolução de um problema silencioso, mas que causa grandes transtornos ambientais e sanitários: o descarte irregular desses resíduos praticado por abatedouros clandestinos e açougues, já que os grandes frigoríficos são fiscalizados.
O diretor de Pecuária da Seagro, José Américo Vasconcelos, destacou que a pasta atua em parceria com os produtores na busca por soluções inovadoras e ambientalmente corretas.
“A produção do Tocantins caminha em parceria com o meio ambiente, e o objetivo da Agrotins é justamente este: levar informação e novas tecnologias aos produtores rurais”, afirmou.
Projeto piloto
O secretário de Meio Ambiente de Paraíso, Wagner Marinho de Medeiros, destacou os transtornos enfrentados pela prefeitura devido ao descarte irregular de resíduos de animais em locais como praças e áreas verdes. Segundo o secretário, o município registra um grande fluxo de animais sendo transportados pela BR-153 que corta o município, e por causa disto, constantemente, há ocorrências de animais que morrem durante este trajeto.
“Esses animais podem ser utilizados nesse processo de compostagem. Acredito que nós temos material suficiente para encabeçar este projeto de compostagem apresentado aqui no evento”, afirmou.
Palestra
Além de abordar a legislação estadual e federal vigente, conforme o Plano Nacional de Resíduos Sólidos, voltada ao descarte desses rejeitos, e apresentar tecnologias industriais utilizadas na cadeia produtiva — como o modelo de compostagem desenvolvido pela Embrapa —, o pesquisador também demonstrou como subprodutos como couro, carcaças e ossos podem ser transformados em produtos de alto valor agregado.
A proposta atende, inclusive, às exigências de mercados internacionais, como a União Europeia, que recentemente suspendeu a importação de carnes e produtos de origem animal do Brasil.
O couro, por exemplo, quando recebe a certificação LWG, pode alcançar valorização de até 15% nas exportações.
“Atender às exigências legais deste setor é o ponto de partida, e a economia circular transforma esse passivo ambiental em receita”, afirmou o pesquisador.
Empresas
Na ocasião, foi realizada a apresentação de empresas que atuam no reaproveitamento de subprodutos bovinos, conduzida pelos palestrantes Eduardo Fonseca e Leandro Charles Barbosa, representantes da Reciclagem Santa Maria e da LK Recolhimentos e Armazenagens de Subprodutos Ltda. Também participou o empresário Daniel Araújo, da Composnorte Soluções Agroambientais Ltda., sediada em Araguaína, empresa especializada no tratamento de resíduos orgânicos agroindustriais.